12 de março de 2010

O privilégio da dúvida

O dia começou mal e ia de mal a pior. Mas o pior não chegava. É realmente incrível o quanto temos que esperar por uma notícia de algo que queremos tanto. Talvez fosse mais fácil se nós simplesmente fingíssemos que aquilo não vai acontecer e parássemos de esperar. Esperar pelo pior. Mas eu queria que o pior chegasse. O pior não chegou.

Era uma noite de sexta-feira e eu me preparava para sair. Iria até São Caetano tomar uma cerveja com alguns amigos e já estava com gel no cabelo quando o telefone tocou. Era uma velha amiga do colégio, queria me ver. Queria conversar comigo sobre alguma coisa que eu não sabia o que era, mas parecia ser pessoal, pessoal o suficiente para ela querer me ver pessoalmente. Pensei um pouco, refleti e disse que tinha que fazer alguma coisa e já retornava a ligação. Não retornei. É interessante a fraca capacidade de discernimento entro o certo e o errado que os seres humanos têm. É bem verdade que a linha entre o certo e o errado está cada vez mais tênue. Assim como todas as linhas

Peguei o carro, sai de casa, fui pra São Caetano. Esqueci o relógio, não sabia se estava atrasado ou não. Voltei pra casa, coloquei o celular pra carregar já que não levaria ele mesmo, e peguei o relógio. Sai de casa, peguei o carro e fui pra São Caetano. Cheguei a São Caetano, estacionei o carro. O que ela queria me dizer?

A Av. Goiás é a maior avenida de São Caetano quando se fala em barzinhos e lugares bacanas para se passar a noite. Tem lugares pra conversar, pra se divertir, comida de fast-food, comidas excêntricas, postos de gasolina e estacionamentos. O Mariette é só mais um bar, desconhecido, entre os muitos bares da Goiás. Tem uma entrada discreta, não atrai grande público, mas foi lá que eu quis ir antes de encontrar os meus amigos no Gargalo.

Entrei, cumprimentei o garçom conhecido meu, pedi um café, naquele calor, e tomei um banquinho. Ainda tinha uns 15 minutos, e uma dúvida. Mas eu não retornei aquela ligação. Eu sabia que algo ruim estava prestes a acontecer por causa dela. Não acontecia. Eram 8 horas e eu ainda não sabia o que era que tinha que ter acontecido. Sai, acendi um cigarro, voltei. Na cadeira do lado da que eu estava tinha uma mulher de uns 40 anos fumando lá dentro, mesmo quando isso era proibido. Ninguém reclamava. Era assim que as coisas aconteciam no Mariette, ninguém reclamava.

Resolvi eu mesmo acender outro cigarro, lá dentro. A mulher tinha uma tatuagem daquelas com escritas árabes que você sempre tem curiosidade de saber o que quer dizer quando vê uma, mas sua curiosidade nunca é grande o suficiente pra perguntar, ainda mais sabendo que uma pessoa que teve a intenção de fazer uma tatuagem dessas também tem a intenção de não revelar o seu significado.

Sei lá por que resolvi que queria conversar com aquela mulher. Tarde demais. Ela já estava de saída. Uma ligação, só o que eu deveria ter feito. Deveria? Nunca se sabe o quanto se quer ouvir de alguém que significou muito pra você e não te liga tem mais de 12 meses e mais de outros 12 meses, e mais. Mas era simples. Linha, teclas, teclas, linha, bip e alô.

Sai do Mariette, fui pro Gargalo, tive uma boa noite e me diverti à beças com os meus amigos. Esperei pelo pior, mas ele nunca veio. Retornei a ligação, uns dias depois, mas ouvi o que eu já sabia, “...não tem mais importância, afinal.”. Não me preocupei mais com isso. Eu a decepcionei, ou a decepcionaria mais ainda se aquela conversa tivesse mesmo acontecido? E tinha diferença entre esse ou aquele jeito? Às vezes nunca se sabe quando se terá outra chance de evitar o pior.

Escrito há um mês atrás, em uma madrugada solitária.

Beijos e Piruetas, 
G.

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